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Primeira mulher a presidir um TJD no Brasil, Renata Mansur propõe mudanças em ambiente ainda machista


Renata Mansur Barcelar, presidente to TJD-RJ, está lendo o livro "Justiça", de de Michael J. Sandel, professor de Havard

Por um embargo instituído pelo governo Vargas, em 1941, o futebol foi proibido para mulheres. Por 38 anos, elas jogaram de forma clandestina. Décadas depois, o machismo ainda está presente. Não se vê técnicas no comando de times masculinos, raras são as dirigentes. Para dar fim a um paradigma, o Tribunal de Justiça Desportiva do Rio de Janeiro (TJD-RJ) deu um passo para mudar essa visão. Em meados de julho, Renata Mansur Bacelar vestiu a habitual roupa social, calçou o salto alto e abriu um largo sorriso para ser aclamada a primeira mulher como presidente de um tribunal desportivo no país.

Aos 47 anos, mãe de dois filhos e professora universitária há 17 anos, a advogada foi candidata única para função, na qual permanecerá nos próximos dois anos.

— Nunca imaginei ocupar esse cargo ou que alguma mulher pudesse. Vivemos num meio ainda machista, apesar de ter sido um pouco superado — conta.

Formada pela UFRJ e mestranda em direito desportivo pela PUC-SP, Renata foi indicada por representantes de árbitros de futebol para a eleição. Filha do ex-presidente do TJD-RJ José Teixeira, começou na área desportiva em 1999, como auditora de comissão disciplinar de vôlei. Passou por tribunais de atletismo e Futebol 7 até ser convidada, em 2008, como a primeira mulher no TJD-RJ.

— Eu cheguei na primeira sessão e todos me encararam. Eles não falaram, mas eu via nos olhares: “O que essa mulher está fazendo aqui?” — lembra. — Ainda existe a ideia de que, para falar sobre direito desportivo, é preciso entender de regras de futebol. Há uma rejeição natural pelas mulheres. Precisamos desmistificar isso. No direito desportivo, você tem que entender do direito desportivo e de regras disciplinares. Não precisa saber o que é escanteio ou quando se marca um pênalti.

Renata Mansur Barcelar começou no esporte em 1999, quando foi auditora do Tribunal Desportivo de vôlei
Renata Mansur Barcelar começou no esporte em 1999, quando foi auditora do Tribunal Desportivo de vôlei Foto: Luiza Moraes / O Globo

Propostas no tribunal

Depois de uma primeira impressão ruim, Renata se sentiu acolhida. Foram três anos como a única auditora mulher, de 2008 a 2011, até ser nomeada presidente de uma comissão. Nesse período conciliava o tempo entre o escritório próprio, dar aulas, cuidar dos filhos, estudar e ainda julgar.

Em 2018, foi chamada para assumir como uma das titulares do Pleno, a primeira mulher a atuar no cargo no país. Dois anos depois, aceitou o desafio e se candidatou à presidência.

— Minha vida mudou completamente. Precisaria de 48 horas para dar conta de tantas coisas. Mas o que importa é conseguir implementar minhas duas propostas: uma justiça desportiva única e cada modalidade ter um código próprio.

Na primeira, Renata se baseia em uma simples questão: o futebol tem estrutura e dinheiro, diferentemente das demais modalidades.

— Se uníssemos forças, com todas as entidades e clubes ajudando a subsidiar um tribunal único, já que ambos indicam os auditores ao TJD, a situação seria quase igualitária. Hoje, há julgamentos feitos em microssalas, até mesmo emprestadas, porque quase todas as modalidades não têm recursos para uma sede própria — afirma.

— Sobre um código desportivo próprio, o atual é baseado no futebol, mas cada modalidade deveria ser diferente. No futebol, o jogador recebe uma pena por dar um carrinho, mas você não tem isso no atletismo, vôlei ou natação.

Suas ideias são vistas com bons olhos, e a presidente do TJD-RJ já sente a disposição dos auditores em colaborar. Mudanças já aconteceram na sua gestão: há mulheres em todas as oito comissões, além de duas no pleno — ela e a auditora Joana Prado. O mesmo não ocorre no Supremo Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), que ela critica :

—Fizeram uma comissão só de mulheres e acham emblemático. Mas elas só julgam o futebol feminino. É o mesmo que dizer que ‘não queremos vocês aqui no masculino’ — comenta.

Vaidosa e católica

Renata é vaidosa. As unhas são pintadas em cor nude, prefere maquiagem leve, usa um anel em cada mão e nunca tira o crucifixo, um pingente com a letra R e o símbolo do infinito do pescoço. Católica, vai quase todos os domingos à Igreja Imaculada Conceição, no Recreio. No escritório, uma cruz de pedrinhas e um Menino Jesus de Praga dividem espaço com corujas e bruxinhas.

Renata é mãe de um casal: Bruna, de 18 anos, e Carlos José, de 12
Renata é mãe de um casal: Bruna, de 18 anos, e Carlos José, de 12 Foto: Arquivo Pessoal

Separada após 16 anos com o ex-marido, Renata Mansur está solteira. Fez promessa para que a filha passasse na universidade e se define como uma pessoa destemida e corajosa — características que a acompanham na vida profissional e necessárias para combater um meio ainda marcado pelo machismo.

— Escuto os homens dizerem que o futebol feminino é feio, chato e não é bacana de assistir. “Ah, são mulheres jogando”. Ainda há muito preconceito.

Renata sabe que, nos próximos dois anos, muito trabalho precisa ser feito no TJD-RJ, mas o pontapé inicial para a mudança já foi dado — e de salto agulha.



nanomag

Radialista Publicitario e Líder dos movimentos sociais.


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